segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

20. O que é liberação?

São Francisco de Assis termina sua famosa oração com as palavras: “ E é morrendo para o pequeno self que nascemos para a vida eterna.” Outro místico disse, “Então devemos ser livres, quando o “eu” deixar de existir.” Então, a essência da ignorância, da escravidão e do torpor poderia ser o sentimento de que alguém é um certo indivíduo com nome e forma, uma data de nascimento, uma altura e peso, com uma certa personalidade e um ego. E, eles dizem, até que se desista, a liberação é um grito distante. Swami Sivananda dizia, “Mate este pequeno “eu”. Morra para viver. Leve uma vida divina. Deus está oculto em seu interior; em seu interior está o espírito imortal, um oceano de bem-aventurança e uma fonte de felicidade. Tudo isto não podemos perceber, mas por quê?

Gurudev diz que não experienciamos o Deus oculto porque estamos muito preocupados com este pequeno ”eu” e estamos totalmente envolvidos, enredados, dominados e oprimidos por ele. É como um fogo que está completamente escondido por uma grossa fumaça negra. Então Gurudev diz que devido a tanta preocupação com o pequeno “eu” você não é capaz de ver a bem-aventurança e alegria. Então, repito, este pequeno “eu” ou ego deve ser aniquilado. Como isto pode ser feito? Levando uma vida divina. As duas palavras que implicam escravidão são “eu” e “meu”. A medida que nossa natureza está caracterizada e dominada pelo “eu”, especialmente se ele for auto assertivo, agressivo e violento, então tal vida é morte espiritual. Esta é a razão porque os antigos diziam, “Da morte, Oh Senhor, conduz-nos à imortalidade.” Isto não poderia ser uma referência ao corpo, porque o corpo não se tornará imortal. O que é, então, a mortalidade e a imortalidade a que estão se referindo? A mortalidade tem a ver com a vida montada no ego, que realmente constitui a morte espiritual. Esta personalidade humana caracterizada pelo ego é uma irrealidade transitória. Elevar-se disto para a Realidade é estar consciente de nós mesmos como parte e parcela do divino espírito na natureza, sem começo, além de tempo e espaço, sem nome e forma, nascimento e morte. Esta consciência é verdadeira, ela é a realidade, ela é luz e imortalidade, liberação, salvação, iluminação ou qualquer outro nome que você queira dar.  

É possível alcançar Deus, atingir a liberação se o intenso desejo para isso ocupa seu coração como o primeiro e principal de todos os desejos e anseios que você possui ardentemente. Se a liberação for a prioridade primeira e ela preenche seu coração, mente e intelecto, e todos os outros desejos vêm após ele, então nada neste universo poderá impedi-lo de alcançar a liberação nesta mesma vida. Isso é certo!

Sejamos práticos. Isto significa que o indivíduo deva parar de desejar ou trabalhar por qualquer outra coisa? Isto não é absolutamente necessário, e isto também não é absolutamente possível. A medida que você está nesse corpo, você deve trabalhar por comida, roupa e abrigo – pois o corpo possui suas exigências. Então, tomar cuidado com as necessidades mínimas do corpo é algo que ninguém é capaz de negar totalmente ou ignorar. Se você intimamente desiste de tudo, ainda que o plano exterior o empurre a atingir o que é essencial à sobrevivência e trabalha para a sua liberação, então o corpo não se torna um obstáculo. Ao contrário, ele torna-se um bote a cruzar o oceano da transmigração, e seu instrumento de liberação. No entanto visto isto por este ângulo. Mesmo a vida secular pode ser parte da espiritual. Nenhuma parte de sua vida é deixada de fora da vida espiritual. Cem por cento de sua vida, vinte e quatro horas do dia, torna-se espiritual se vista da forma correta e vivida da maneira correta. Ela torna-se parte integral de um compressivo movimento em direção a Deus.

Isto é o caminho que Gurudev ensinou: não tenha dicotomia, não faça separação. Sinta que toda sua vida é significada por sadhana, por liberação. Sendo assim, com todo o seu coração, mente e espírito, você ansiar por isto, deixe-me assegurá-lo que liberação é cem por cento certa. Nenhum poder na terra o impedirá de receber o que você merece. Pois, pelo seu anseio, você a merece.


(Extraído de sivanandaonline.org - tradução livre)



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016




19. O Guru e o Discípulo

Não somos capazes de facilmente superar os velhos prejuízos psicológicos relativos à externalidade das coisas. Para dominar esses males, há necessidade do indivíduo purificar sua mente. Muitos métodos foram sugeridos pelos antigos sábios como serviço humilde ao guru, conduta humilde, e a obtenção de clareza que liberta dos desejos que surgem da falsa percepção do mundo. 

Mesmo nos dias de hoje, na maioria das cidades modernas, a necessidade de um guru não pode ser evitada, porque ninguém é tão sábio capaz de conhecer tudo sobre o futuro. Todos os problemas são novos quando surgem. Então, necessitados de um superior para nos guiar.

O professor não deve ser alguém em desacordo com seu conhecimento. Ele deve ser “ananya”, ou “não-outro.” Um “ananya” é o indivíduo que não é diferente daquilo que ele ensina. Nos dias atuais, temos homens instruídos, professores, que acreditamos ser repositores de conhecimento, mas suas vidas diferem daquilo que eles pregam. O conhecimento torna-se significativo quando ele é vivenciado, e não meramente ensinado, ou ouvido ou lido. Você se aproxima de um guru que esteja estabelecido no conhecimento que ele adquiriu, em quem o conhecimento tornou-se uma parte de seu ser e vida e prática, e quem também a graça do poder de expressão. Este conhecimento não pode ser obtido por mero estudo por si próprio. Ele requer a graça de um Mestre.

O conhecimento acadêmico é também conhecimento, mas não traz convicção e não é capaz de transformar seu coração. O que você obtém através do guru é pleno de força viva e energia e vitalidade e poder que o guru transmite para o discípulo através da iniciação, através da qual o guru entra na mente do discípulo. A relação entre o guru e o discípulo não se rompe com o corpo. Mesmo se o guru morre fisicamente, ou o discípulo passe desse mundo físico, a relação entre eles não cessa, porque a relação guru-discípulo não é meramente física ou social. A influência sobre o estudante pelo professor na escola é certamente importante. A instrução que o estudante recebe do professor verbalmente é uma coisa, entretanto o benefício da instrução pode ser relativamente limitada. Por outro lado, quando o guru fala ao discípulo, o espírito do guru exerce um impacto imediato na mente do discípulo. Isto é porque o guru não é um ser humano comum, mas alguém que passou pelos vários estágios do treinamento do Yoga e adquiriu a habilidade para ensinar. 

O estudante se entrega ao professor total e exclusivamente, e o professor toma a responsabilidade de tomar conta do bem-estar do espírito do estudante, e não meramente seu intelecto. O guru é de um status transcendente, que está acima do discípulo, mas não fora do discípulo. O guru não é uma pessoa que fica aparte do discípulo, e então o discípulo não deveria pensar que a instrução vinda do guru é uma instrução vinda de uma fonte externa. O guru é um “todo” e não apenas uma pessoa na frente do discípulo. Para o discípulo, o guru não é um indivíduo entre outros indivíduos, não é uma pessoa entre muitas outras pessoas. O preceptor é uma deidade diante do discípulo; ele é o próximo estágio de elevação da deidade. É uma totalidade que é possível – a única integridade possível acima do nível do indivíduo. Cada discípulo é único em si mesmo, e o guru tem que prestar atenção à condição particular da mente do discípulo.

A mente é confusa. A única saída é pedir por ajuda. Assim como uma pessoa capaz de enxergar pode auxiliar outra com problema de visão, e é capaz de indicar o caminho do destino a ser alcançado, da mesma forma é o espírito de olhos vendados nesta vida selvagem toma a guia de uma pessoa de visão. A iniciação de um discípulo por um guru não é um mero enunciado de palavras. É a comunicação de uma energia, uma força. É a vontade do guru, como assim fosse, entrando na vontade do discípulo, onde ambos, tem que estar no mesmo nível. 

Quando sua busca é sincera, mesmo que você não compreenda as coisas totalmente, você será cuidado pelas forças do mundo, e um guru ou um professor estará à sua frente.

(extraído de sivanandaonline.org - tradução livre)

domingo, 6 de novembro de 2016



O Bhagavad Gita


O Gita é uma mensagem de eternidade, e tem um significado atemporal para cada um de nós. As vicissitudes da vida não possuem qualquer impacto sobre esta mensagem, porque ela surge de uma fonte que transcende as transições da vida. É uma mensagem que incorpora o conhecimento do que é em última análise real. A união do indivíduo com o Absoluto é a meta final desta história que é o Gita. É uma história do movimento de toda criação ao Criador, o Pai de todos os seres que aqui se encontram neste fenômeno generalizado.

Quanto mais fundo você vai ao interior de si mesmo, mais profundo será o significado que você descobrirá no Gita. Se sua personalidade exterior ler o Gita, você verá o aspecto exterior de sua mensagem. Todo o ensinamento do Gita está centrado em equilíbrio, equanimidade, e colocando em ordem tudo que não está em ordem. Todas as leis de vários tipos significam uma coisa, a saber, a necessidade de se manter a harmonia, e ela deve ser mantida em tudo, em cada caminhada na vida, e em qualquer momento da vida. O contexto no qual Arjuna, o herói deste épico, o símbolo da humanidade em geral, encontra-se em uma situação completamente humana. É a sua situação, a minha situação e a de todo mundo.

A relutância de Arjuna em pegar em armas é a relutância do buscador espiritual em lidar com a realidade em sua essencialidade. O desalento, ou o clima de melancolia em que o homem é representado, e no qual se encontra Arjuna, é descrito como uma condição espiritual. É por isto que mesmo o chamado abatimento é considerado como uma parte do Yoga.